sábado, 6 de fevereiro de 2010

Sem título.

Tu. Tu. Tu. Tu.

- Alô? – ouvi pela primeira vez sua voz. Estava hesitante e parecia sem fôlego.

- Gabriela? – quis confirmar se era mesmo a garota.

- Oi, sim, sou eu. – disse ela, ainda confusa – Felipe?

- Oi.

- Oi.

- Então, eu to aqui embaixo – respondi simplesmente.

- Aqui embaixo? Como assim? – ela parecia incrédula, como se acreditasse que fosse uma brincadeira.

- É, aqui embaixo. Na portaria do teu prédio.

- Tu tá brincando, né?

- Claro que não, desce logo.

- Ah. Meu. Deus – foram suas ultimas palavras.

Lá estava eu, um rapaz na portaria do prédio da garota a qual eu julgava ser A garota. Não estava sozinho. Um amigo e sua paquera foram comigo, mas me sentia mais sozinho do que nunca. Sentia-me mais bobo do que nunca segurando o violão com a mão direita e o celular na esquerda. Decorara um pequeno texto para dizer e aprendera uma musica para tocar, mas agora, tudo o que eu ouvia, tudo em que eu pensava, era na voz que acabara de escutar. Não era digna de alguém de catorze anos e sim de uma garota de dezesseis, no máximo dezessete. Era sexy, era envolvente.

Barulhos de chinelos no chão molhado chamaram minha atenção. Agora, a voz saíra da minha cabeça e estava envolvida com a imagem que me encontrava a mirar naquele momento.

Via uma figura clara, comprida, que refletia a luz do sol e chamava atenção com os óculos pretos. Parecia relutante e ainda incrédula. Cabelos castanhos escuros esvoaçavam às suas costas, andava depressa. Estaria nervosa como eu estava?

- Felipe? – disse mais uma vez hesitante, enquanto apertava o botão para abrir o portão.

- Oi. – respondi simplesmente. Percebi que desejava beijá-la, mas não podia.

E foi nesse momento que a vi olhando para outro lugar que não era para mim. Olhava para alguém ao meu lado. Um grito.

- GABRIELA! – saiu correndo para abraçar a garota que estava ao meu lado. A tal paquera de meu amigo Marcelo, Gabriela, era uma das melhores amigas da minha garota. Elas não se viam há duas semanas, devido às férias escolares.

Quando se soltaram, Gabriela olhou para o lado.

- Marcelo? – e abraçou meu amigo. Não deveria ter sentido nada em relação a isso, mas meu coração não me enganou e não fingi quando não sorri.

E aí, se virou para mim novamente.

- Oi. – ela disse baixinho.

- Oi. – eu respondi.

Ela se pendurou em meu pescoço e me deu um beijo na bochecha. Calafrios percorreram meu corpo. Me sentia mais envergonhado do que nunca, mas ela não parecia muito à vontade também.

Entramos em seu condomínio e nos sentamos em batentes, ao lado da piscina. Ela andava na minha frente, do lado da amiga. Pude prestar mais atenção na roupa a qual vestia. Uma bermuda marrom e uma blusa pólo branca. Mais simples impossível. Seus cabelos estavam secos, voando ao vento que soprava. Ela não me perguntara nada a respeito do violão. E eu não quis apressar nada. Eram duas da tarde.

Quando nos sentamos, Marcelo e Gabriela, a colega de minha garota, continuaram a andar, indo em direção ao salão de jogos.

- E aí, por que vocês apareceram assim, de repente? – ela me perguntou, parecendo liberar um fardo.

- Bom, você sabe que nunca dava certo pra gente se ver. Sempre que tu podia, eu tava em aula e vice versa. E a Gabriela me falou ontem que vinha aqui hoje porque amanhã vocês têm um aniversário pra ir e ela vai dormir aqui e tudo mais. Daí eu comentei isso com o Marcelo e ele me deu a idéia de vir aqui e te ver. – tudo saía como se tivessem apertado o botão "ejetar".

- Mas, assim, sem avisar? – havia deixado a confusão de lado e parecia chateada.

- É. Pra ter a surpresa e tudo mais.

- Hm. – ela não parecia ter mais nada a dizer.

Nisso, eu olhava para o chão. Olhei para seus pés. Gordinhos e com unhas curtas. Estava pensando em várias coisas, se deveria chegar mais pra perto, se deveria tocar o violão, mas então, quando ainda estava esse turbilhão em minha mente, ela se aproximou de mim. Tocou em meu cabelo. Estava tentando tirar algo que lá estava preso.

- Pronto, consegui. – disse com um sorriso, segurando uma folha. Nossos joelhos se encontravam e ela percebia isso. Não se mexia.

Ela sorriu.

Eu sorri.

Ela olhou pro violão.

- Então, eu trouxe meu violão porque eu queria te mostrar uma coisa que eu aprendi a fazer. E esta é pra você.

Ela continuava com um sorriso tímido que entendi como um sinal para continuar.

Posicionei meus dedos no braço do violão e toquei a musica que meus ouvidos não se cansavam de ouvir e que meus dedos não cansavam de tocar. All for you, Sister Hazel.

Ao tocar, olhava para ela. Eu sabia que ela entendia o sentido da musica. Eu sabia que ela sabia a tradução. Mas não sabia o porquê dela começar a ficar vermelha e com os olhos molhados. Minha voz estava rouca e estava nervoso e com medo de errar qualquer coisa e parecer um bobo. Não queria parecer bobo na frente daquela garota.

Ao terminar, pedi mais alguns poucos minutos da atenção dela. Toquei Cricket. E ao começar a cantar, vi-a lágrimas derramar. Não entendia a razão daquilo. Parei a música no momento em que a vi chorar e fiquei olhando-a.

- O que foi? – perguntei, com medo da resposta.

Não houve resposta. Ela tirou o violão de meu colo, segurou em meu pescoço e me beijou. Ali mesmo, na frente de todo o seu condomínio. Sem vergonha e sem inibições. Minha cabeça estava a mil, me perdia no movimento do beijo. Ela segurava meu pescoço e ia mais fundo. Não acreditava no que estava acontecendo. Minha garota. Beijando-me. Parecia um sonho. O sonho que já tivera várias vezes.

Demoramos a entrar em sintonia. Eu ia devagar, querendo aproveitar cada momento. Ela ia com pressa, como se sua vida dependesse daquilo. Como se quisesse terminar logo.

Ao fim, ela encostou sua cabeça em meu ombro e eu consegui dizer o que vinha guardando desde do momento que chegara ao prédio. Não tinha muita certeza do que sentia até vê-la andando em minha direção no começo da tarde. "Eu tô meio que apaixonado por ti". "Eu sei".

domingo, 31 de janeiro de 2010

Aulas.

- Ah não, aí também já é demais. True Blood também? - o garoto ria com um sorriso cansado, mas genuíno.
A vítima de tais palavras se mostrou assustada. O tal estranho surgira do nada, enquanto ela passava por uma coluna do colégio em que fazia curso.
Ele agora não estava mais em pé, em sua frente. Sentava-se no terceiro degrau da escada ao seu lado, enquanto falava:
- Desculpe pelos meus modos, mas, há alguns dias eu venho te observando, er, Lisa. - agora seu sorriso não era mais de cansaço e sim como se estivesse envergonhado pelo o que dissera.
- Ahn. - esse foi o único som que ela emitira na conversa, acompanhado de um sorriso um pouco amedrontado.
- Ah não, agora você está com medo de mim. Olha, desculpa pela minha aparição assim, repentina, é só que como eu já disse, já tem uns dias que eu venho te observando e, por favor, não ache que eu sou algum maníaco sexual ou algo assim. É só que... bom, da primeira vez que eu te vi, tua blusa do "Arctic Monkeys" me chamou atenção, sabe? Assim, eu gosto muito dessas bandas britânicas. E, depois eu olhei pra ti, sei lá, eu me encantei.
Lisa continuou olhando para o desconhecido que continuava sentado na escada. Ele olhava para ela, e quando ela fixou os olhos nele, o garoto desviou o olhar. Lisa então, repentinamente, sentou-se ao seu lado na escada e o olhou, agora com interesse e curiosidade.
- Hm, mas... como você sabe meu nome, então?
- Quando você chegava aqui com seu namorado --
- Espera, meu namorado? - Lisa o interrompeu, sem pensar em educação ou algo do tipo.
- É, aquele garoto que sempre chega com você.
- Espera aí, o Felipe? Meu Deus, como você pode achar que o Felipe é meu namorado? Ele é só um amigo que mora perto de mim e com quem eu pego carona.
- Então você não tem namorado? - um sorriso brotava entre os lábios do jovem rapaz.
- Não. - Lisa sorria, envergonhada com a felicidade que o rapaz demonstrara.
- Então, como eu dizia, eu sei teu nome porque quando eu te via chegando, eu sempre via o... Felipe conversando contigo, então eu o ouvi falando teu nome e guardei. E sempre que tu chegava era quando eu ia entrar na sala. Até tiveram umas vezes que eu me atrasei porque esperava tu chegar para poder entrar na sala. Eu sei que isso pode soar estranho, mas...
Antes que ele pudesse dizer outra coisa, o sinal tocou. A aula de Lisa começaria dali cinco minutos.
- Posso só te fazer uma pergunta? - ela parecia envergonhada.
- Claro, Lisa.
- Se quando eu chego, você já tem que entrar na sala, o que você tá fazendo aqui fora? - sua sobrancelha esquerda arqueou-se, como sempre acontecia quando Lisa tinha alguma dúvida.
- Hoje é sexta, não é?
- É.
- Veja bem, às sexta-feiras eu não tenho aula.
- Então... por que você --
O garoto silenciou Lisa com seu olhar.
- Você sabe bem o porquê. Adeus, Lisa.
Ela o viu ir embora, silenciosamente, repentinamente. Do mesmo jeito que chegou.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

2010.

Seu rosto brilhava.

As luzes da cidade a iluminavam.

O calor dos corpos ao seu redor a abraçava.

O último ano passava por seus olhos como um filme.

A festa de 15 anos da amiga.

As visitas em casa.

Os jogos de sinuca.

As aulas cabuladas.

Os raros abraços, cada vez mais significativos.

...

O que ela via parecia algo que ela não vivenciara.

Como se ela fosse pura espectadora daquela sucessão de imagens e memórias.

Tais memórias que não pareciam ser reais.

Tudo parecia parte de um sonho.

O sonho que ela sempre quis realizar, e ao realizá-lo, preferiu não tê-lo.

Os carinhos, o abraço, a sensação do seu corpo contra o dela...

Tudo parecia tão épico.

E errado.

Ela sentiu uma lágrima quente escorrendo pelo canto do rosto e secou rapidamente.

Seus amigos não podiam vê-la assim.

Ninguém podia.

Ninguém entenderia.

Os fogos de artifício faziam um verdadeiro show no céu.

Explodiam.

Estava tudo em fogo.

Ela estava em fogo.

Tinha fogo em seus olhos.

Ela só tinha uma coisa em mente.

"Adeus 2009, a Deus 2010".